Resenha | Luke Cage (1ª Temporada)

Ao final dos 13 episódios, fiquei muito aliviado. Na maior parte, já que as minhas expectativas estavam baixas e como não conhecia o personagem tão afundo, o que a série me mostrou foi que o universo Marvel na Netflix caminha com passos cada vez mais e mais firmes rumo ao maior evento que irá acontecer para o estúdio dentro do serviço de streaming.

Após o sucesso devastador que foi a primeira temporada de Demolidor e a boa temporada de Jessica Jones, ao anunciar a reunião de seus heróis como o grupo chamado Os Defensores, a expectativa do público mudou de foco.
A segunda temporada de Demolidor mostrou que, assim como os defeitos de Jessica Jones, a fórmula poderia ser um tiro no pé do estúdio, já que a quantidade de episódios mostrou que poderia haver uma revisão do modelo. Vide o exemplo magnífico de Stranger Things.

Eis que então os heróis mais desconhecidos do quarteto estão chegando. Quer dizer, isso já pode se disser apenas de Danny Rand, porque Luke já chegou.

Teaser Trailer dos Defensores:

A série não só é o terceiro passo dado em direção aos Defensores, mas como representa a importância que o personagem tem para a história da Marvel. Criado nos anos 70, o Poderoso (no original Powerman) foi um dos primeiros heróis afro-americanos a estrelar uma revista em quadrinhos. E isso era de uma importância sem tamanho para o cenário cultural, pois foi visualmente inspirado nos filmes blackploitation dos anos 1970.

Logo, Cheo Hodari Coker, criador da série, sabia de que a tarefa em adaptar o personagem não teria relevância só para o universo da Marvel, mas também, para mostrar uma outra visão do universo dos super-heróis e como eles afetam diretamente a vida das sociedades em que vivem.
E as fusões entre ficção e realidade são muitas durante a temporada. Brigas entre gangues, brigas pelo poder, seja ele político ou das ruas, o funcionamento do sistema e o que é acobertado da população. A exploração dos mais pobres pelos mais ricos, a união entre os moradores de uma comunidade. São muitas as nuances político-sociais que são mostradas na série de uma maneira bem autoral e com personalidade.

Se a intenção era fazer algo totalmente diferente das outras séries de super-heróis, o objetivo foi mais que concluído.

Carl Lucas é um homem injustiçado que após sofrer experimentos na prisão, desenvolve habilidades como super força e pele impenetrável. Ao voltar para o Harlem, Luke Cage (Mike Colter) é apresentado ao público em maiores detalhes do que os mostrados em Jessica Jones. A verdade é que a ambientação, inicial, coloca o personagem logo após os eventos ocorridos na série da detetive de Hell's Kitchen.
Contudo, graças ao ambiente amigável que encontra na Barbearia do Pop (Frankie Faison), local que se tornou refúgio de Cage em seu retorno ao bairro, e os conselhos de seu dono, alimenta a esperança e a vontade do ex-presidiário a melhorar de vida e ser alguém melhor.

Mas a postura que será necessária para que Luke assuma seu posto de herói, logo lhe é colocada a sua frente. E o começo disso é mostrado já quando ele parte para seu segundo emprego. No Harlem’s Paradise, somos apresentado a alguns dos vilões da trama. Seu dono Cornell Stokes (Mahershala Ali), conhecido como Boca-de-Algodão (Cottonmouth) e sua prima, a vereadora Mariah Dillard (Alfre Woodard).

É o primeiro aviso de que a série terá uma questão mais "humana" onde os vilões são poderosos, mas no âmbito urbano. E o vislumbre visual que a boate entrega é o mesmo vislumbre que Cornell vive. E enquanto sua prima tenta trazê-lo para o mundo real e as consequências de suas ações, parece que o mundo que criou para ele e para o seu plano de dominar o Harlen são maiores em sua cabeça.
Mas sua prima tem planos maiores que também vão de encontro ao outro lado dos vilões, que tem como porta-voz Shades (Theo Rossi) da ameaça de Diamondback (Erik LaRay Harvey) sempre a espreita para manter o vislumbre de Cornell em segundo plano. Mas essa briga acaba esbarrando em um herói que está pra nascer.

Sim, com certeza, ainda mais após a intervenção de campangas não muito inteligentes e erros que custarão muito caro ao gangster. Mas seria algo simples colocar um cara que é impenetrável para enfrentar alguns bandidos de bairro certo? E é dessa forma que a série constrói os seus melhores momentos.

De forma dinâmica e não apressada, a série distribui a história no presente e os flashbacks de modo que o espectador vai entendendo o porque Luke se torna um cara fechado e que relutante quanto a sua nova "posição". A transformação entre um simples faxineiro em uma barbearia escondida para a salvação do Harlen é mostrada de uma maneira muito bacana.

E sem cansar, o que é mais importante e sem perder o ritmo explicando em três episódios (Jessica???!!!) algo que durou apenas meio episódio.
Mostrar as fraquezas e como um novo herói surge se mistura em meios as dificuldades que qualquer outro morador do bairro teria para vencer na vida. Entre as mudanças de tom de positividade dos primeiros episódios para a incerteza e sim, medo, a temporada se divide de forma eficaz e além de resolver os conflitos que são desnecessários para o futuro, mas sem esquecer de deixar algumas pontas bacanas para o futuro.

Claro que não só de vilões um herói é feito. E por mais que a detetive Misty Night (Simone Missick) fique em cima do muro durante boa parte da temporada, uma velha conhecida aparecerá para acompanhar Cage na sua evolução. Sim, teremos de volta a enfermeira mais famosa de Nova York. Claire Temple (Rosario Dawson) tem talvez a participação mais relevante entre as três séries até o momento. E claro que o talento de Rosario ajuda em muito na construção de sua personagem que está definitivamente no hall dos melhores personagens do universo Marvel.

E tanto o Harlen é parte do contexto, que se torna aliado do herói e da sua transformação. Como Pop dizia para que ele deixasse de se esconder, é o bairro que o ajuda a ser um elemento surpresa mesmo não havendo a necessidade de tanto modo stealth. Tanto na ambientação, essa jornada do herói urbano, não poderia também ter melhor aliado do que uma trilha sonora acertadíssima.
A cultura negra americana, com foco na parte nova iorquina da questão, é parte constante da história. A superação, a vontade de vencer, de unidade, de melhor para ao próximo. Cage se torna um herói do povo, sem máscara e que perde o medo de lutar pelo que acha certo após perceber que a única saída é lutar.

Luke Cage entra para o grupo dos acertos da Marvel. Consegue corrigir alguns erros cometidos em suas séries irmãs e ainda se destaca pelo seu visual único e ter a ousadia de ser diferente apenas usando as ferramentas que a sua própria ambientação lhe entrega.

Seja pela baixa expectativa, seja pela qualidade mostrada, a série tem sim alguns defeitos, mas eles são irrelevantes em meio aos grandes acertos. Atuações que não comprometem, roteiros ágeis quando tem que ser ágeis, didáticos quando tem que ser didáticos. Cenas de ação bacanas e bem dirigidas. Trilha sonora excelente e mostrando o que a Marvel sabe fazer de melhor: contar uma boa história.

As referências são várias e a agora falta apena uma peça para o quebra-cabeça ser completo. Ponto para a parceria Marvel/Netflix. Todos os episódios já estão disponíveis aqui.

Trailer:

Ficha Técnica:
Luke Cage da Marvel (Marvel's Luke Cage) - 2016 - 55 min. (13 episódios) - EUA - Ação/Fantasia
Criada por: Cheo Hodari Coker
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Mike Colter, Mahershala Ali, Simone Missick, Theo Rossi, Erik LaRay Harvey, Rosario Dawson, Alfre Woodard
Site Oficial: https://www.netflix.com/title/80002537



Resenha | Luke Cage (1ª Temporada) Resenha | Luke Cage (1ª Temporada) Reviewed by Sérgio Leitão on 21:30 Rating: 5

Sobre o Sérgio: Made in Fortaleza perdido em SP since 95. Pai do Matheus e do blog Desventuras de um Alter Ego. Quase músico, quase escritor, quase tudo, quase nada. Facebook | Twitter

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